Como Erradicar o Vício

Carlos Augusto Galvão

Há muito que as drogas ilícitas estão disseminadas por todos os estratos sociais, todas as faixas etárias, enfim, espalham-se por toda a humanidade.Então, é profundamente injusto ver o uso de entorpecentes como atividade própria somente dos jovens.

Em meu consultório, não é raro aparecerem também pessoas com mais de 50 anos em busca de apoio psiquiátrico para livrar-se de dependências químicas, pessoas que conseguem trabalhar, manter um nível social adequado, mas que, em razão da dependência, se assustam com o futuro e a possibilidade de \”perderem o controle\”. Todos comungam com o medo do que pode acontecer caso não haja êxito terapeutico. Morrem de medo do escândalo social caso sejam descobertos, das implicações jurídicas e criminais, da fragilidade que se expôem na hora de comprar essas substâncias e das balas dos traficantes.Tenho observado que o indivíduo, na grande maioria dos casos, chega a maturidade trazendo um vício adquirido na juventude.

Podemos dizer, no entanto, que os adolescentes são os mais expostos à incidência dessas afecções por uma série de fatores oriundos das próprias características da juventude: curiosidade, instabilidade emocional e imaturidade; então todas as formas de combate a drogadição devem ter como alvo prioritário o público jovem em razão da vulnerabilidade dessa faixa etária, evitando assim o aparecimento de adultos viciados no futuro. E ai entra a família como importante ator, tanto na profilaxia quanto na terapeutica deste flagelo da humanidade.

Também é comum receber no consultório pais alarmados com filhos que mudam bruscamente de comportamento, declinam no rendimento escolar, tornam-se agressivos e irritadiços. Imaginam logo que seus filhos estão envolvidos com entorpecentes. Há famílias com dificuldades imensas de comunicação entre as gerações, o que dificulta muito a observação e identificação de problemas nos mais novos, e ai pode estar o \”caldo de cultura\” favorito para o surgimento da afecção. Manter diálogo com os filhos, procurar entender seus gostos e desgostos, suas aflições – muitas vezes insignificantes quando observadas de fora -, suas atividades e comportamento, tanto escolares quanto fora da escola, e, sobretudo, seus amigos e sua \”turminha\”, é um fator muito importante para manter a saúde social de uma família de uma maneira geral e detectar o surgimento de problemas com os jovens, inclusive drogadição. Há, porém, que se manter o bom senso de não agredir o filho com observação muito ostensiva que pode simplesmente fazer o efeito contrário – o jovem passa a se esconder e quebrar o diálogo.

Não dá para erradicar essa doença sem o engajamento profundo das famílias, em interação com as autoridades sanitárias.

Dr.Carlos Augusto Galvão é medico psiquiatra do Hospital Beneficiencia Portuguesa de São Paulo